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Marisa lota teatros americanos em turnê seletiva
Popstar no Brasil, cult nos Estados Unidos. A diferenciação assinalada pelo crítico Ben Ratliff no "New York Times" é assumida por Marisa Monte, que encerrou em 4 de outubro a turnê americana de "Memórias, crônicas e declarações de amor", formada por apenas sete cidades. Mas que a expressão "cult", somada ao pequeno número de cidades, não seja interpretada como shows em pequenas salas ou pouca atenção da imprensa. Além do "New York Times", várias outras publicações importantes ("Village Voice", "Los Angeles Times", "Boston Globe", "Miami Herald"...) dedicaram farto espaço à passagem da Marisa e cada uma de suas apresentações reuniu cerca de 3 mil pessoas, com muita gente não conseguindo ingresso.
- Já fiz turnês maiores nos Estados Unidos, indo mais para o interior, Texas e outros estados, mas desta vez não podia ficar três meses fora no meio de uma turnê pelo Brasil. Então, escolhemos só as cidades mais importantes - explica Marisa, em Miami, fazendo um balanço dos 13 dias americanos, nos quais novamente sua levada pop surpreendeu parte de crítica e público. - Nos Estados Unidos não sabem o que aconteceu no Brasil depois da bossa nova, tanto que estão descobrindo os Mutantes agora. Eles são grandes exportadores, mas têm o mercado muito fechado para o que vem de fora. Para a maioria dos críticos, o Brasil é bossa nova, e para o povão é pior: mambo, rumba... Então, acho que os caras ficam meio desconcertados com o nosso show, porque não sabem como categorizar.
Apesar disso, a reação da imprensa tem sido boa e a do público, muito boa. As cidades escolhidas para os shows - que não sofreram qualquer modificação de repertório em relação aos feitos no Brasil - foram Los Angeles (primeira etapa, em 22 de setembro), Escondido, São Francisco, Washington, Nova York, Boston e Miami. Os brasileiros formavam, obviamente, boa parte da platéia, mas se misturavam a um enorme número de americanos. Marisa acha que seu público nos Estados Unidos nunca será muito maior do que é hoje, até porque este não é o seu desejo:
- Há um mercado enorme para o público latino aqui, mas para quem canta em espanhol, não em português. E eu acho lindo cantar em português. O show pode até ter algo em inglês ou em espanhol, mas nunca vai ser a maior parte do meu trabalho. Então, meu público aqui é restrito mesmo, mas é um público de qualidade, é o americano de cabeça aberta.
O que tem deixado Marisa feliz nesta turnê é estar podendo fazer quase todos os shows com a concepção cênica original, o que significa contar com todos os recursos visuais, a começar pelo cenário do artista plástico Ernesto Neto, que chamou bastante a atenção dos críticos americanos. Só em Boston, por causa das pequenas dimensões do Berklee Theater, isto não foi possível, como também não será em Zurique, na Suíça. Marisa ressalta que nos últimos seis anos sua preocupação e a de seu empresário, Leonardo Netto, tem sido encontrar um caminho próprio nos Estados Unidos, não caindo no circuito fácil dos festivais de verão, nos quais a atenção é dividida com vários outros artistas.
- É um caminho para poucos mesmo, mas é um caminho interessante, bom, sólido, de qualidade. Não vou satisfazer a avidez das pessoas daqui por música exótica só para vir para o exterior - diz Marisa.
Iniciada no dia 8 com um show em Zaragoza, na Espanha, a parte européia da turnê internacional será bem diferente e, segundo Marisa, possivelmente melhor.
- O público da Europa é mais aberto, conhece a música de África, Oriente Médio, das Américas, de Cuba, e acompanham o processo de evolução da música brasileira. Sabem quem é Gil, Caetano, Lenine, Chico César.
Mas Marisa encara como desafio cantar em lugares em que é pouco conhecida. Zaragoza é um deles, e Skopje, na Macedônia, onde se apresenta em 22 de outubro, é outro. Já em Portugal os ingressos para os shows se esgotaram há muito tempo, tal o sucesso que Marisa faz no país. A viagem termina no dia 29 com um show em Bruxelas, na Bélgica, e antes de meados de 2001 certamente a cantora e sua banda não voltam aos palcos do exterior.
- Só tenho programação confirmada até o fim de abril, depois ainda não sei, preciso ver o que vou querer - conta Marisa. - Já fizemos uns 60 shows. Dá para fazer mais uns cem, mas não mais 250. Os músicos não querem parar, a gravadora não quer, os empresários não querem, o publico não quer, então sou eu quem tem que dar a medida, para que o show continue sendo um desafio: algo criativo, bom, gostoso.
Rio ouve declarações de amor e gentileza
O batalhão de fotógrafos que se amontoava em frente ao palco nas três primeiras músicas retratava, literalmente, a expectativa em torno da estréia no Rio do novo show de Marisa Monte. E, a se julgar pelo comportamento da platéia durante o bis, quando as mais de 3 mil pessoas que lotaram o ATL Hall ficaram de pé para cantar com Marisa, tanta expectativa foi recompensada. "Memórias, crônicas e declarações de amor", o show, iniciou na sexta-feira (7 de julho) sua temporada carioca de três semanas com sucesso e novidades.
Uma das novidades só surgiu no bis: pela primeira vez na turnê, Marisa cantou "Onde você mora", música dela e de Nando Reis que se tornou um dos maiores sucessos do Cidade Negra. Outra novidade começou antes da primeira música: desde as 22h era possível acompanhar ao vivo no site de Marisa entrevistas com convidados, feitas por Carolina Sá, e informações sobre o show. A transmissão contou com flashes da apresentação, permitindo a quem estava em casa ver e ouvir músicas como "Amor I love you", "Beija eu" e "Não vá embora".
Muitos convidados da estréia foram entrevistados durante a transmissão. Entre eles, Fernanda Montenegro, Moraes Moreira, Lulu Santos, Pepeu Gomes, Toni Garrido, José Wilker e Daniel Filho, além de Monarco, representando a Velha Guarda da Portela, que esteve toda presente e uniformizada na platéia, sendo homenageada por Marisa durante a interpretação de "Volta meu amor". Moraes Moreira, pai do guitarrista da banda, Davi Moraes, também foi reverenciado antes de "Palavras ao vento", parceria dele com Marisa.
Marisa dedicou especial atenção ao Profeta Gentileza, tema de sua música "Gentileza". Falou do porquê de ter feito a canção, revelou que as filhas dele estavam na platéia, ressaltou o trabalho de uma organização não governamental que está restaurando o trabalho do artista - que pintava mensagens poéticas em pilares do Viaduto do Caju, na Zona Portuária do Rio - e, no bis, vestiu uma camisa desta ONG.
O público aplaudiu muito Marisa na homenagem a Gentileza, mas também em outros momentos: "Para ver as meninas", "Eu sei", "Não é fácil", "Beija eu" e "Volta meu amor", por exemplo, receberam carinho especial. A última música do repertório, "Não vá embora", ainda estava tocando e muita gente já se levantava para dançar na frente do palco. No bis, praticamente todo o ATL Hall dançava, com grupos até se dando as mãos durante "Onde você mora". O show terminou com Marisa jogando rosas para a platéia e cantando "Eu te amo, te amo, te amo", a música de Roberto e Erasmo Carlos que tem sido um dos grandes destaques da turnê. Marisa devolvia no refrão, então, a declaração que um fã insistente - e capaz de verbalizar o desejo de muita gente - gritara durante a noite: "Marisa, eu te amo".
Show de Marisa ganha a estrada e o público do Sul
Foi literalmente na estrada que Marisa Monte encerrou a primeira fase da turnê de "Memórias, crônicas e declarações de amor". Ela e outras 30 pessoas transportaram a enorme estrutura do show de Porto Alegre para o interior do Rio Grande do Sul, passando de ônibus ou caminhão por Santa Maria, Pelotas e Caxias do Sul. Depois de seis apresentações com casa lotada na capital gaúcha - tendo os escritores Luis Fernando Verissimo e Eduardo Bueno na platéia do último dia - Marisa cantou nas outras três cidades para cerca de 8 mil pessoas ao todo. Este giro pelo Sul, iniciado em Curitiba em 2 de junho, serviu para medir a empatia do show junto ao público, azeitar o roteiro para as temporadas de Rio e São Paulo e unir ainda mais cantora, banda e equipe técnica para a longa turnê que se estenderá até 2001.
- É muito melhor andar de ônibus, num clima agradável, do que ficar fechada no hotel o dia todo esperando a hora de pegar o avião - diz Marisa.
E avião, no Sul, só mesmo de Curitiba para Porto Alegre. O restante da viagem foi levantando o pó da estrada. Quem chegava primeiro nas cidades eram as duas carretas contendo todos os equipamentos do show, graças aos quais é possível projetar os vídeos no cenário criado por Ernesto Neto e ter som e luz de primeiríssima qualidade. As carretas vermelhas começavam a ser enchidas de caixas assim que Marisa saía do palco, depois do último bis. Na madrugada elas iniciavam a sua viagem, chegando no destino pela manhã, quando estava saindo da cidade anterior da excursão o primeiro dos dois ônibus. Nele iam Leonardo Netto (produtor e um dos diretores do show) e responsáveis pela parte técnica, como o diretor de iluminação Danny Nolan. No segundo ônibus seguiam Marisa, a banda e mais algumas pessoas. É uma megaestrutura que começou a ser alinhavada com a concepção do cenário.
- A partir da idéia do Neto para o cenário, começamos a imaginar o show, seu conceito, sua dimensão - recorda Leonardo. - A escolha do repertório, obviamente, também foi fundamental para dar o tom do espetáculo, sua levada. Depois fomos encontrando as condições para que tudo isso fosse possível.
E "tudo isso" era desembarcado nas cidades sem um parafuso local, apenas com a participação de 20 pessoas na montagem e desmontagem da estrutura. E, é claro, com a participação do público, sempre presente em grande quantidade, na casa dos quatro dígitos. Em Santa Maria, na terça-feira (13 de junho), foram mais de 3 mil pessoas lotando o ginásio do Clube Dores, esquentando ainda mais a temperatura que desmentia a tradição gélida do inverno gaúcho.
Bem antes das 21h, arquibancadas e cadeiras já estavam ocupadas por uma platéia majoritariamente adolescente, que vibrou com o "Amor I love you" inicial, ondulou coreograficamente em "Não é fácil", urrou com os hits "Eu sei" e "Beija eu" e, confirmando uma marca desta primeira fase da turnê, não voltou a se sentar na hora do bis. Tranqüila antes de começar o show a ponto de fazer brincadeiras enquanto subia as escadas para o palco, Marisa ficou ainda mais à vontade no bis, quando tirou fotos da platéia com sua máquina digital ao mesmo tempo em que cantava à capela "Bem que se quis". O público saiu do ginásio entoando a música, enquanto Marisa já partia rumo ao hotel.
- O show foi todo maravilhoso, mas, se ela não cantasse "Bem que se quis", eu ia apedrejá-la - brincou um eufórico fã na saída do clube.
Marisa e banda reencontraram a estrada no início da tarde de quarta-feira, quando partiram para Pelotas numa viagem de mais de 200 quilômetros e quatro horas e meia de duração, com direito a uma parada para almoço e outra para esticar as pernas. Nestas paradas, a tradição gaúcha transpareceu em churrascos e homens de bombachas e chapéus típicos, com Marisa passeando e comendo livremente, sem ser reconhecida. Dentro do ônibus, Mauro Diniz, que toca cavaquinho e violão no show, comandava uma roda de samba movida a Cartola, Nelson Cavaquinho, Dona Ivone Lara, Paulinho da Viola e até Marisa Monte: os músicos criaram uma versão de "Amor I love you" em ritmo de samba que ganhou gargalhadas de aprovação dela.
Mal chegou a Pelotas - a única das três cidades da turnê pelo interior onde ela já tinha se apresentado - Marisa deixou de lado sua porção celebridade e foi a uma loja de departamentos tentar comprar roupas para ela e um presente para o guitarrista Davi Moraes, que faria aniversário na sexta 16. Não deu. Assim que sua presença foi notada, começou o ti-ti-ti e ela preferiu voltar para o hotel. Saiu de lá no fim da tarde do dia seguinte, quinta-feira (15 de junho), para a passagem de som que é feita horas antes do show. Enquanto esperavam Marisa, os músicos experimentavam instrumentos diferentes dos que tocam: o baixista Dadi improvisava no teclado e depois na bateria; o tecladista Carlos Trilha empunhava o baixo; o percussionista Leonardo Reis mostrava seu talento na bateria, e o também percussionista Peu Meurrahy cantava.
Marisa testou o som em apenas três músicas e desceu da platéia para conversar com Leonardo Netto sobre, entre outras coisas, o Teatro Guarany, uma sala construída em 1921 que é orgulho de Pelotas, evocando arquitetonicamente o Teatro Municipal do Rio e a Ópera de Paris, mas cujas paredes descascadas espelham a crueldade da ação do tempo. Como mostram placas situadas nos corredores do teatro, por lá já passaram Gilda de Abreu e Vicente Celestino, Ana Botafogo, Walter Pinto e outros. E a passagem de Marisa não será esquecida tão cedo. Parte do público de quase 1.500 pessoas assistiu ao show de pé, dançando quase o tempo todo e fazendo o velho teatro tremer em músicas como "Palavras ao vento" e "Não vá embora".
O ápice foi no bis, com "Lenda das sereias" levando ao delírio a platéia, que ainda viu Marisa atender aos pedidos de "Bem que se quis". A máquina fotográfica de Marisa é que não atendeu aos seus pedidos para funcionar e frustrou a cantora, que não fez imagens do público mas saiu plenamente satisfeita com ele:
- Que público fofo! Eles foram muito calorosos.
Ao chegar ao hotel cinco minutos depois de encerrado o show, Marisa encontrou dois fãs que, dizendo-se sem dinheiro para ir ao teatro, resolveram ver a cantora de perto de outra forma. Marco Antônio Afonso Coimbra e Edmilson Arião de Souza Franco conseguiram autógrafos de Marisa e fotos ao lado dela. Missão profissional cumprida, ela foi para o quarto com a irmã, Lívia Monte, para preparar a festa de aniversário de Davi, que teve bolo de chocolate, vinho e, para culminar, exibição em vídeo de dois filmes do grupo Monty Python: "A vida de Brian" e "O cálice sagrado". Ver filmes ao ado da banda é um dos costumes de Marisa nas turnês e às vezes rendem histórias engraçadas. O filme escolhido em Santa Maria, por exemplo, foi o assustador "O iluminado", de Stanley Kubrick, que se passa exatamente num hotel. Resultado: Dadi ficou completamente aterrorizado; Leonardo Reis pediu para dar uma saída e não voltou mais.
A sessão em Pelotas acabou na alta madrugada, mas às 10h já estavam todos no lobby do hotel para pegar o ônibus rumo a Caxias. Marisa deu mais alguns autógrafos e tirou mais fotos antes de seguir numa viagem mais silenciosa do que a anterior, na qual o samba foi trocado pelo sono. Isso antes do almoço, que foi numa churrascaria de Porto Alegre. Depois, um jogo de porrinha já divertia Dadi, Mauro Diniz, Leonardo Reis e o baterista Marcelo Costa, enquanto Marisa filmava os músicos usando a câmera do Repórter Conspira.
Embora cansados da viagem e com muita saudade de casa, a equipe encerrou feliz a primeira fase da turnê na serrana Caxias do Sul, com um show caloroso para mais de 3 mil pessoas no sábado (17 de junho). Neste, Marisa fez sua máquina funcionar e registrou a alegria do público no bis. Depois de uma semana de descanso, ela e os músicos já voltarão a ensaiar de novo para a estréia no Rio, no ATL Hall, em 7 de julho. A estrada foi momentaneamente deixada para trás, mas seus frutos estarão nas futuras "Memórias, crônicas e declarações de amor" de Marisa.
Marisa chega mais perto do público
As "Memórias, crônicas e declarações de amor" de Marisa Monte ficaram mais perto do público a partir de quarta-feira (7/6), quando o show estreou em Porto Alegre. Não que o Teatro do Sesi seja pequeno (são quase 1.500 lugares), mas é menor do que o gigantesco Guaíra, em Curitiba, onde a turnê começou no dia 2. A proximidade maior com a platéia impediu Marisa, por falta de espaço, de descer do palco no bis, como fizera no Paraná, mas deu a ela a chance de ver melhor as reações do público.
- Pude ver a cara das pessoas, e foi ótimo, porque elas estavam muito empolgadas. E o que tem me deixado surpresa é que o público está cantando quase todas as músicas do novo disco, que saiu só há três semanas. "Não é fácil" e "Não vá embora", por exemplo, são muito cantadas - comemora Marisa, que, se num dos shows de Curitiba entoou "Bem que se quis" à capela no bis, na estréia gaúcha fechou a noite com "Lenda das sereias", samba-enredo que está em seu primeiro disco. - É bom ter umas surpresas para o final.
Como os ingressos para os cinco shows previstos se esgotaram rapidamente, Porto Alegre ganhou um show extra no domingo, quando haverá duas apresentações. Depois ela segue de ônibus para cidades do interior gaúcho, onde cantará em grandes ginásios, algo bem maior do que Guaíra e Teatro do Sesi. Perde-se de novo a proximidade com o público, mas ganha-se amplitude para as projeções de vídeo (feitas por Vicente Kubrusly, João Bonelli e Gabriela Gastal, da Conspiração Digital), que têm sido um dos destaques das apresentações.
- Um show não é algo só auditivo, mas mexe com todos os sentidos. E eu sinto que os vídeos têm um impacto muito grande no público. Só lamento é quase não poder ver as projeções enquanto estou cantando - diz Marisa, para quem o show não é predominantemente pesado, apesar das três percussões e das guitarras fortes de Davi Moraes. - Ele é muito leve em alguns momentos e muito pesado em outros. É um show de extremos, assim como é tudo na vida, e o resultado final é equilibrado.
Na sexta-feira, a descontração marcou o jogo de futebol que músicos e técnicos do show fizeram contra um time organizado pelo sushiman do hotel em que a trupe da Marisa se hospedou. O sucesso da pelada motivou um novo confronto, no domingo, antes da dose dupla de shows.
Marisa abre a turnê esquentando a fria Curitiba
No meio da estréia nacional de "Memórias, crônicas e declarações de amor", Marisa Monte perguntou para uma platéia que gritava seu nome: "Quem disse que faz frio em Curitiba?". E fazia bastante frio, menos de 10 graus, na noite de sexta-feira (2 de junho) da capital paranaense. Mas as cerca de duas mil pessoas que lotavam o Teatro Guaíra pareciam não sentir isso, empolgadas com o fato de estarem vendo a première de um dos shows mais esperados do ano e com o repertório do próprio show, que une canções do novo disco da cantora a sucessos antigos como "Eu sei" e "Beija eu". Quando Marisa voltou para o bis, ninguém quis se sentar de novo, e todos aproveitaram as últimas três músicas para dançar.
E não foi um show absolutamente impecável. Talvez por causa do nervosismo inevitável de uma estréia, Marisa tropeçou em três letras. Mas não foi necessário interromper as músicas, nem isto comprometeu o sucesso da estréia. Depois de tanto tempo ensaiando, sem ter qualquer contato com o público, Marisa e sua numerosa equipe puderam ver na reação empolgada da platéia de Curitiba a certeza de que estão trilhando o caminho certo. Um caminho que, na sexta-feira, começou e terminou com os espectadores fazendo coro com Marisa: "Amor I love you", a primeira música, e "Não vá embora", a última (excetuando as do bis), foram muito cantadas, sendo que a escolhida para o final verbalizou no título-refrão, pelo menos em Curitiba, o desejo do público.
Além do tema de abertura, do qual Marisa não participa, o show tem 19 números. Há momentos intimistas, como os sambas "Para ver as meninas" e "Gotas de luar" (ambas do novo disco), e temas em que as três percussões, associadas a guitarras, baixo, bateria, teclados e à voz possante de Marisa, fazem o teatro tremer. É o que acontece em "Tema de amor" e "Não vá embora", por exemplo.
Marcado para as 21h, o show começou apenas 15 minutos depois e em clima de serenidade. Nas coxias, pouco antes de entrar no palco, Marisa conversava com músicos e técnicos sorrindo e aparentando estar confiante no resultado da estréia. Pudera. Durante os ensaios no Rio e, na véspera do show, ela cuidou minuciosamente de todos os detalhes da superprodução, desde as marcações de entrada e saída de cena dos músicos até as projeções de vídeo realizadas pela Conspiração Digital. Tudo com a ajuda de Leonardo Netto, seu produtor e um dos diretores do show, e das 45 pessoas que foram a Curitiba realizar a estréia.
O ensaio geral na quinta-feira poderia ter sido prejudicado por um percalço: o tecladista Carlos Trilha perdeu seu vôo e só pôde chegar a Curitiba por volta de meia-noite. Marisa e os músicos esperaram resolvendo problemas de som e luz e até relaxando _ a cantora, por exemplo, passou quase meia hora cantando sambas antigos com Mauro Diniz (filho de Monarco e que toca violão e cavaquinho no show). Marisa também deu uma entrevista para a TV Globo local. Quando o ensaio começou, à 1 e meia da manhã, as coisas se mostraram afiadas e deixaram todos satisfeitos.
O resultado se confirmou no show, que foi o primeiro teste das sofisticadas projeções de vídeo e da mesa de som Paragon, controlada por Nelson Nuccini. Segundo o técnico, nenhum artista brasileiro conta com uma mesa com tantos recursos, usada por nomes do pop internacional como Bryan Adams, Gloria Estefan e Ricky Martin. E, como se provou em Curitiba, a alta tecnologia não esfria o show, só ajuda a esquentá-lo. Calorosa mas educada, a platéia paranaense vibrou quando, no bis, Marisa desceu do palco para cantar perto das primeiras filas. Ao sair do Guaíra, o público cantava "Amor I love you", como se quisesse recomeçar o show.
Uma parte do público não saiu, preferindo esperar Marisa na porta de seu camarim. Ela atendeu a todos, distribuindo autógrafos e beijos. Depois, foi jantar com a equipe num restaurante de comida italiana, dando mais alguns autógrafos para admiradores das outras mesas. Ao término do fim de semana, a cantora deixou o Paraná com a certeza de um ótimo início de turnê, que agora segue para as também frias cidades do Rio Grande do Sul com a missão de provocar nos gaúchos a sensação que a fã Vanuza expressou, em Curitiba, numa faixa em frente ao hotel onde Marisa se hospedou: "Hoje, até o frio da nossa cidade se esconde, pois seu carinho aquecedor está presente."
Fãs se preparam aqui e até no Japão para o show
Primeiro foi a espera pelo disco novo de Marisa Monte. Agora é a ansiedade para ver o show "Memórias, crônicas e declarações de amor". Muitos fãs nem esperam: em vez de esperar pacientemente o dia em que a turnê vai passar por sua cidade, preferem ir até Curitiba para assistir à estréia.
- Estou tão ansiosa que não vai dar para esperar o show chegar em São Paulo, onde moro. Vou direto para Curitiba - conta Milene Fernandes, de 21 anos, presidente do Mais Fã-clube, orgulhosa por aparecer numa das fotos do livro de Marisa. - Para quem já foi vê-la em Campinas e no Rio, não tem o menor problema. Nós do fã-clube estamos bolando camisetas para usar no show.
Integrante do mesmo fã-clube, Alessandra Gonçalves, de 22 anos, não se contentará só com o show:
- Estamos nos preparando para visitá-la no hotel e acompanhá-la em alguns programas aqui em São Paulo. Ainda estamos pensando em outras surpresas e, independentemente disso, cada um sempre leva um presentinho no camarim.
Muita gente planeja levar cartazes ao show com recados para Marisa, embora normalmente não seja permitida a entrada com eles. Fundador do canal de bate-papo virtual "#MarisaMonte" no BrasIRC, Bruno Monnerat Alves, de 17 anos, já sabe o que vai escrever:
- Penso em levar uma faixa assim: "MEMÓRIAS da sua história, CRÔNICAS sobre a vida cotidiana e DECLARAÇÕES DE AMOR à vida e ao seu trabalho me trazem aqui hoje". Gravei o CD novo em fita para ficar ouvindo na ida para o colégio e para o cursinho e na volta para casa. É para eu estar com tudo afiadinho quando o show chegar no Rio. Na última turnê, ainda não tinha idade para ir sozinho, mas desta vez eu vou.
Muita gente acha que ver o show uma vez só é pouco.
- Eu e meus amigos vamos aos três primeiros e aos três últimos shows de São Paulo - diz Luciano Ferrari Bissolati, de 19 anos, fundador do fã-clube MM em Osasco (SP). - Se puder entrar com cartazes, queremos levar um com a inscrição "Amor, I love you! Beija nós, beija nós, beija nós, nos beija". Às vezes fico até sem dormir esperando o dia...
Wellington Benedito da Silva, de 21 anos, mora em Olinda, em Pernambuco, e é outro que tem se esforçado para controlar a ansiedade:
- Vou ao show de Recife e pretendo jogar carinhosamente para ela uma linda camisa da região e outra do movimento mangue beat. Estou louco para ver o show. Afinal, são cinco anos sem vê-la. Quase desmaiei quando soube as datas da turnê.
Nadja Benetti, de 25 anos, verá a apresentação de Goiânia, onde mora, mas quer ver o show de Brasília também. Camila Mouzer Viana, de 22 anos, planeja viajar de Macaé (RJ) para o Rio para ver sua cantora favorita no palco. E atenção, seguranças: Frederico Araujo Viggiano, de 17 anos, ameaça subir no palco para abraçar Marisa num dos shows de São Paulo.
A paixão por Marisa não conhece nem fronteiras:
- Sairei de Ponte de Sor, onde moro, para ir a Lisboa assistir aos dois concertos que fará essa bela moça que vocês têm aí no Brasil - conta o fã português Júlio César Falca, de 28 anos. - A crítica dos jornais de Portugal em relação ao último álbum tem sido das melhores. O jornal "Expresso" o classificou como imprescindível.
A maranhense Aline de Lima, de 21 anos, fundou o fã-clube Chocolate em Estocolmo, na Suécia, e também terá que viajar para ver Marisa:
- Adoraríamos que ela cantasse aqui ou em algum país escandinavo. Mas já que não vem, acho que vamos vê-la na França ou na Inglaterra. Minhas amigas acham que eu me pareço um pouco com a Marisa. Então, talvez no dia eu me faça passar por ela só por curtição.
Infelizmente, muita gente não terá mesmo como ver "Memórias, crônicas e declarações de amor" ao vivo. É o caso da mineira Alessandra de Souza Fujihara, de 24 anos, que mora em Hamamatsu-shi, no Japão, e sabe que a turnê não vai passar nem perto dela:
- Gostaria que a Marisa soubesse que, se um dia ela vier cantar no Japão, estarei na primeira fila. Mesmo que seja em Tóquio, que fica a quatro horas de onde moro. Uma vez estive em Belo Horizonte e peguei um cartaz que anunciava um show dela. Trouxe para o Japão e guardo até hoje. Tenho todos os seus CDs. Se ela soubesse quanto pago por eles aqui...
Marisa ensaia entre o amor e a precisão
Num galpão da zona portuária do Rio, o amor passeia entre incontáveis metros de cabos, muitas caixas, alta tecnologia e sons de toda espécie. O barulho que esse aparato faz raramente é barulhinho e nem sempre é bom, mas é necessário para se produzir o romantismo que pontua "Memórias, crônicas e declarações de amor", o show de Marisa Monte baseado no disco homônimo lançado no início de maio. No final do mesmo mês, o galpão foi palco dos últimos ensaios feitos no Rio para a abertura da turnê em Curitiba, em 2 de junho. Antes de Marisa começar a ensaiar os muitos "I love you" e "Eu te amo" do repertório, as equipes técnica e de produção passavam horas ajustando decibéis e detalhes para que o amor fosse cantado sem ruídos.
E é com detalhes que Marisa se preocupa assim que chega ao galpão. Faz perguntas a Leonardo Netto - seu produtor e que dirige o show com ela e Claudio Torres - conversa com os músicos e, antes de engatar uma canção atrás da outra, senta-se numa cadeira em frente ao palco para preparar à exaustão o início do espetáculo. Não se cansa de testar a melhor fórmula para dar a partida nos mais de 20 números do show. O que parece ser maçante para quem observa à distância é fundamental para Marisa poder fazer o que mais gosta: cantar.
- Ensaiar é algo muito prazeroso para mim, porque aqui eu só me preocupo em cantar - exalta Marisa, entre cansada e relaxada, depois de mais de duas horas de labuta. - Eu gasto 80% do meu tempo criando meios para cantar: dando entrevistas, participando de reuniões, fazendo o que é preciso para durante algumas horas poder ter prazer. Mas tudo na vida é assim, o amor é assim...
Marisa está com o amor na cabeça e, principalmente, na voz. No show, ele aparece claramente em músicas do último disco como "Amor I love you", "Não vá embora", "O que me importa" e "Gotas de luar", e também em canções dos discos "Mais" e "Verde anil amarelo cor de rosa e carvão" que voltam ao palco. Para Marisa, o tom do show "Memórias, crônicas e declarações de amor" nada mais é do que uma extensão do conceito do disco "Memórias, crônicas e declarações de amor".
- Fala de amor, mas não só o amor de casal. É principalmente o da gentileza, do perdão - classifica ela. - É o amor dual, pessoal, transpessoal... Não o reprodutivo, mas o produtivo, transformador e criativo.
Se alguém pode se confundir com algum dos adjetivos acima não se confunde com as músicas, sempre com força e clareza para chegar diretamente ao coração da platéia. Neste show, elas estão revestidas de muita percussão (são três percussionistas no palco, além do baterista) mas sem perder a ternura, garantida pelos instrumentos de corda e pelos teclados. No ensaio, quando os músicos chegam ao galpão, o palco já está todo montado, com cada peça em seu lugar. Gil Borges, responsável pela afinação dos instrumentos de cordas, dá os últimos retoques. Neste show, além das vocais, Marisa trabalhará pela primeira vez com outras cordas: as de duas guitarras que ela empunha em boa parte do espetáculo.
- É uma guitarra de compositora, eu toco as minhas músicas - explica. -
Antes eu passava as melodias para os músicos, agora eu também toco. Tudo tem
a sua hora.
Antes de chegar sua hora de subir ao palco para começar a ensaiar, Marisa investiga detalhes, mas também relaxa. Lê até notícias de esporte refestelada num sofá. Perto dela, um repórter do jornal argentino "El Clarín" que acabou de entrevistá-la observa toda a movimentação de técnicos e músicos. Assiste como privilegiado a uma série de surpresas sonoras e visuais que os fãs do Brasil e do mundo começam a desvelar a partir de Curitiba. As "Memórias, crônicas e declarações de amor" de Marisa Monte vão cair na estrada.